Ou o jeito dela dizer que amava ❤️
Falar da minha mãe é, antes de tudo, falar de força. De uma força silenciosa, daquelas que não fazem alarde, mas sustentam uma vida inteira, a força da Dona Olímpia, ou melhor, da Dona Lili, como todos conheciam.
Filha de descendentes de italianos que vieram para o sul de Santa Catarina fugindo da guerra, ela cresceu em um tempo em que a infância durava pouco. Perdeu a mãe muito cedo e, com apenas 11 anos, precisou deixar a escola para cuidar dos irmãos mais novos. Não demorou muito para perder também o pai. A vida, para ela, não foi leve — foi necessária.
Ainda menina, aprendeu a ser adulta. Foi morar com parentes, trabalhou, seguiu. Tornou-se costureira, profissão que exercia com dignidade e dedicação. Mais tarde, casou-se com meu pai, trabalhador das minas de carvão de Urussanga/SC. Juntos, construíram uma família com três filhas — eu, a mais nova.

Apesar dela de ter estudado apenas até o primário, minha mãe carregava uma convicção muito clara: as filhas teriam aquilo que ela não pôde ter, iriam fazer faculdade. Esse era o sonho dela. E mais do que um sonho, era um compromisso. Nós três fizemos faculdade. E o mais bonito é que esse valor se espalhou: hoje, todos os seus descendentes também têm formação universitária. Entre filhas e sobrinhos, são histórias que continuam a partir da escolha dela.

A educação foi a herança que ela deixou. Uma herança que não se guarda em caixas, mas que transforma destinos. Ela costumava dizer: “O melhor casamento é um bom emprego”. E, com o tempo, a gente entende o tamanho dessa frase. Era sobre independência, dignidade e escolha.
Mas minha mãe não era de palavras fáceis. Não era de abraços demorados ou demonstrações delicadas. O carinho dela não vinha em forma de gestos óbvios. Vinha da cozinha. Era no fogão que ela se expressava, no prato sempre cheio, no cuidado de preparar, servir, insistir: “come mais um pouco”. Era ali que morava o afeto dela.

E assim fomos crescendo — alimentadas não só de comida, mas de presença. De um amor firme, constante, que não precisava ser dito para ser sentido. E, claro, havia também o olhar típico das tias italianas, sempre orgulhosas: “Oh que bela, bem gordinha”!
Neste Dia das Mães, eu escolho lembrar dela através daquilo que melhor a representava, suas receitas. Comidas que, à primeira vista, parecem comuns, mas que carregam histórias, escolhas, renúncias e, sobretudo, amor. Porque a verdade é que cada prato que ela servia dizia algo que talvez ela nunca tenha falado em voz alta:
“Eu cuido de vocês.”
“Vocês estão seguros.”
“Eu amo vocês.”
E talvez seja isso que a gente aprende com o tempo — que existem muitas formas de amar. A dela era assim, não em palavras, mas em receitas. Hoje, minha mãe já não está mais entre nós. Mas permanece viva em tudo aquilo que nos ensinou, em cada escolha que fazemos e, principalmente, em cada receita que ainda carrega o sabor do amor dela.
POLENTA
A polenta é dessas presenças certas nas mesas de quem carrega raízes italianas — simples, firme, essencial. Na minha casa, ela ganhava outro sentido nas mãos da minha mãe, que mexia a panela com paciência quase ritual, como quem sabe que o tempo também é ingrediente. Depois, vinha o gesto final: despejar a polenta fumegante sobre a tábua redonda de madeira, guardada só para esse momento. Ali, mais do que um prato, nascia um pedaço da nossa história.
INGREDIENTES
- 3 xícaras de chá de farinha de milho bem fina
- 1,5 litro de água depende muito do tipo da farinha
- 1 colheres de sopa de sal
MODO DE FAZER
- Coloque a água fria e o sal em uma panela grande e funda.
- Em seguida, despeje a farinha aos poucos, mexendo vigorosamente para que não embolore. Use o batedor de claras para isso.
- Ligue o fogo baixo, tampe a panela e deixe cozinhar por 1 hora. A cada 3 minutos, mexa com a ajuda de uma colher de pau.
- Ela criar uma cascão na panela, é isso que vai dar o sabor a polenta.
- Logo que estiver pronta, despeje em um pirex e sirva em seguida.
PICADINHO DE CARNE
O picadinho de carne com batata e cenoura era o prato que mais encantava meu pai. Tinha dias em que ele mesmo tomava a frente do fogão, como quem queria repetir aquele sabor que também era afeto. Entre panelas e risadas, o simples virava especial — e a comida, mais uma forma de amor na nossa casa.
INGREDIENTES
- 1 kg Coxão mole
- 2 batatas grandes
- 2 cenouras médias
- 1 colher de sopa de farinha de trigo
- 5 colheres de sopa de azeite
- 2 cebolas picadinhas
- 2 dentes de alho picadinhos e amassados
- 2 colheres de sopa de vinho tinto pode ser branco
- ½ colher de sopa de folhas de tomilho opcional
- ½ colher de chá de cominho opcional
- Sal e pimenta a gosto
- ½ xícara de chá de cebolinha verde picada
- 2 folha de louro
MODO DE FAZER
- Corte cubinhos de 3 cm da carne. Tempere a carne com sal e pimenta.
- Reserve fora da geladeira enquanto prepara os outros ingredientes.
- Coloque para ferver 1 litro de água.
- Descasque as batatas e corte em cubos de 3 a 4 cm. Corte as cenouras em rodelas de 2 a 3 cm. Reserve os legumes dentro de uma tigela com água fria.
- Coloque a farinha de trigo sobre os pedacinhos de carne e misture com a mão para que envolva todos os pedaços.
- Coloque 1 colher de azeite para esquentar em uma panela com fundo alto. Não pode ser panela antiaderente, pois não criará crosta, que é uma etapa muito importante para este prato.
- Quando o azeite estiver bem quente, coloque um terço da carne para refogar. Aqui é somente para dourar de todos os lados, não precisa cozinhar a carne. Retire a carne da panela, coloque mais uma colher do azeite e mais 1/3 da carne. Doure e retire.
- Faça o mesmo com o restante da carne. Reserve a tigela com as carnes douradas.
- Na mesma panela que a carne foi dourada, coloque o restante do azeite e em seguida as cebolas. Refogue até ficarem murchas, só então coloque o alho.
- Assim que o alho perfumar, volte todos os pedaços de carne para a panela e acrescente o vinho. Aproveite para ir raspando o fundo da panela e dissolver todo aqueles queimadinhos que ficaram no fundo da panela. Deixe evaporar totalmente o vinho.
- Acrescente as folhas do louro, as folhinhas do tomilho e o cominho.
- Junte 1/2 litro de água, abaixe o fogo e deixe cozinhando com a panela meio tampada.
- Cozinhe até sentir que a carne está bem macia. Se necessário coloque mais água e vá raspando o fundo de vez em quando, para que não grude.
- Quando a carne estiver cozida, escorra a água da batata e da cenoura, que estão na tigela e adicione a carne. Cozinhe até ficarem macias.
- Desligue o fogo, junte a cebolinha verde e deixe a panela tampada enquanto arruma a mesa.
CUCA DE BANANA
Minha mãe preparava a cuca de banana com calma, enquanto eu esperava a hora de levar à padaria para assar. Lá, nunca cobravam — um gesto simples de gentileza. Talvez o forno de casa nem importasse: o que ficou foi o ritual, o caminho e a lembrança de um tempo leve e cheio de afeto.
INGREDIENTES
- Cobertura
- 6 bananas maduras a nanica é a melhor
- ½ xícaras de chá de farinha de trigo
- ½ xícara de chá de açúcar
- 3 colheres de sopa de manteiga sem sal 50 g – gelada
- 1 colher de sopa de canela em pó
Massa
- 2 xícaras de chá de farinha de trigo
- 1 xícara de chá de açúcar
- 3 ovos
- 3 colheres de sopa manteiga 50 g
- ¾ xícara de chá de leite
- 1 colher de sopa de fermento em pó
- Manteiga e farinha de trigo para untar a forma
MODO DE FAZER
Cobertura
- Descasque as bananas, corte em rodelas de 1 cm e reserve.
- Numa tigela, com a ponta dos dedos, misture todos os outros ingredientes da cobertura e coloque na geladeira enquanto prepara a massa.
Massa
- Pré-aqueça o forno a 180º C.
- Unte com manteiga e farinha de trigo uma assadeira retangular de 32 cm X 22 cm.
- Coloque a manteiga e o açúcar na batedeira e bata até formar uma farofa úmida.
- Junte um ovo inteiro de cada vez a essa mistura batendo a cada adição para incorporar bem. Bata até formar um creme claro
- Diminua a velocidade da batedeira e adicione a farinha de trigo em 3 etapas, intercalando com o leite. Bata somente o necessário para a massa incorporar.
- Desligue a batedeira, acrescente o fermento e misture delicadamente com a espátula. Essa massa fica mole.
- Despeje a massa para a assadeira untada e nivele bem.
Finalização
- Distribua as rodelas de banana sobre toda a massa sem sobrepor.
- Despeje a farofa por cima sobre as banana. Não precisa nivelar a farofa, ela fica mais crocante se estiver irregular.
- Leve ao forno para assar por cerca de 40 minutos ou até o bolo crescer e a farofa dourar ou faça o teste do palito.
- Retire a cuca do forno e deixe esfriar completamente antes de servir.
CARNE DE PANELA
É o sabor dessa carne de panela — ou carne assada, como minha mãe dizia — que acende memórias adormecidas, como se o tempo pudesse ser servido à mesa. Era o centro dos nossos almoços de domingo, cercada por macarronada caseira, maionese e folhas de alface recém-lavadas. Tudo simples, tudo completo. Porque, no fundo, era ali que a vida acontecia: entre o aroma que tomava a casa e o silêncio satisfeito de quem se sentia, enfim, em casa.
INGREDIENTES
- 1 ½ kg tatu lagarto
- 2 cebolas fatiadas em media lua fina
- 3 dentes de alho picados
- 1 colher de chá de páprica defumada opcional
- 1 colher de chá de cominho moído
- ½ xícara de chá de vinho pode ser branco ou tinto
- 1 copo americano de água
- 6 folhinhas de alecrim não são ramos, só as folhinhas mesmo – opcional
- 1 colheres de sopa de tomilho
- 6 folhas de louro
- Sal e pimenta a gosto
- 3 colheres de sopa de azeite ou óleo
MODO DE FAZER
- Tempere a carne um dia antes com todos os temperos, menos o óleo.
- Guarde em um recipiente fechado e deixe na geladeira.
- No dia seguinte, em uma panela de alumínio, coloque o óleo para esquentar.
- Separo, ferva um litro de água e reserve.
- Tire todos os temperos grudados na carne e coloque-a para selar no óleo quente. Faça isso em todos lados.
- Quando perceber que as bordas da panela estão queimando, derrame um pouco do líquido em que a carne foi temperada. Só um pouco do líquido, sem os temperos.
- Com uma colher, raspe as bordas da panela para as crostas se dissolverem no líquido. Faça isso todas as vezes que sentir que está queimando as bordas da panela. Esse processo é bem demorado, mas é essencial para dar sabor a carne.
- Assim que ela estiver bem escura, tire a carne da panela e reserve.
- Na mesma panela, coloque todos os temperos e deixe-os cozinhar por um tempo.
- Assim que estiverem cozidos, coloque novamente a carne e despeje 1/2 litro de água. Mexa bem.
- Feche a panela e deixe cozinhar por cerca de 3 horas, até ela se despedaçar com um garfo.
- Se preferir, pode transferir para uma panela de pressão por 1 1/2 hora, mas abra a cada 20 minutos, para verificar a água. Vá acrescentando água quando sentir que está secando.
- Se quiser, no final, pode cozinhar batatas ou cenouras em pedaços grandes, junto com a carne.
DOCE DE ABÓBORA NA CAL
O doce de abóbora na cal da minha mãe tinha aquele encanto antigo, de receita que atravessa gerações. Os pedaços firmes por fora e macios por dentro guardavam um segredo simples e precioso — um equilíbrio que a gente não explica, só sente . Era doce de espera, de tempo respeitado, de cozinha em silêncio. E, em cada colherada, vinha mais do que açúcar: vinha memória, vinha cuidado, vinha esse jeito delicado que ela tinha de transformar o simples em inesquecível.
INGREDIENTES
- 1 kg de abóbora pescoço já cortada em cubos de 3 cm
- 500 g de açúcar cristal
- 3 colheres de sopa de cal virgem (aquela de construção mesmo)
- 8 unidades de cravos-da-índia
- Água
MODO DE FAZER
- Descasque a abóbora, corte em cubos de mais ou menos 3 cm cada um e coloque em uma bacia grande.
- Coloque sobre ela a cal.
- Despeje a água e deixe, no mínimo 1 hora de molho. Não passe de duas horas porque ela pode ficar muito seca.
- Depois desse tempo, escorra toda a água e lave em água corrente. Reserve
- Numa panela grande, junte o açúcar, 1 xícara de água e os cravos da Índia. Mexa somente para misturar e não mexa mais até a calda ficar com uma cor levemente caramelo. Veja no vídeo a cor do caramelo.
- Com cuidado para não se queimar, despeje os quadradinhos da abóbora, 2 xícaras de água e cozinhe até ficarem macios. Cerca de 10 minutos.
- Espete um garfo para ver se o interior está macio.
- Ainda quente, coloque em um pote esterilizado, feche bem e coloque na geladeira.
- O doce de abóbora na cala, só vai estar bom no dia seguinte, quando os quadradinhos absorverem bem a calda de açúcar.
- Dura até 3 semanas fechado na geladeira.
NOTAS
Dá para fazer abóbora cristalizada com essa receita?
Sim, você pode fazer abóbora cristalizada à partir da receita de abóbora em calda com cal. Depois das 24 horas na geladeira para absorver bem a calda, escorra e passe cada quadradinho da abóbora no açúcar cristal e disponha em um forma ou peneira grandes. Não amontoe. Deixe secar em um local ventilado, longe da umidade. Depois que estiverem secos, coloque em um vidro bem fechado.FAROFA DE GALINHA
A farofa de galinha da minha mãe era presença certa nas nossas viagens longas de carro, guardada com cuidado dentro de uma lata — como quem leva um pedaço de casa junto. Era ela que perfumava o caminho até Curitiba, nas visitas à minha irmã, misturando saudade, expectativa e afeto em cada parada. Anos depois, essa mesma receita ganhou um novo gesto nas minhas mãos e se transformou na farofa de coxinha da asa — uma continuação do sabor, agora também com a minha história.
INGREDIENTES
Coxinha da asa
- 1 kg de coxinha da asa de frango ou 1 pacote
- 1 cebola em fatias grossas
- 2 dentes de alho amassados.
- Tempero pronto para frango a gosto opcional
- 1 limão espremido
- Pimenta-do-reino moída a gosto
- Sal a gosto
Farofa
- 2 cebolas cortadas em meia-lua
- 2 dentes de alho picados e amassados
- ½ xícara de chá de óleo
- 2 colheres de sopa de bacon opcional
- 1 ½ xícara de chá de farinha de mandioca fina
- 2 colheres de sopa de farinha de milho fina ou flocada
- 1 colher de sopa de colorau urucum
- ½ colher de sopa de páprica defumada
- ½ xícara de chá de temperinho verde
- 1 colher de sopa de raspas de limão
- Sal a gosto
MODO DE FAZER
Coxinha da asa
- Coloque sobre as coxinhas da asa os temperos, esprema o limão e misture tudo com a mão. Passe em cada coxinha. Deixe por, no mínimo, uma hora.
- Pré-aqueça o forno ou a air frayer a 200º C por uns 15 minutos.
- Com a mão, retire os temperos do frango para não queimar quando assar.
- Em uma forma grande, disponha o frango, deixe um espaço entre eles. Não use óleo, a pele deles já tem gordura suficiente. Coloque no forno.
- Depois de 20 minutos, vire todos para o outro lado.
- Depois de mais 20 minutos (total de 40 minutos), o frango deve estar pronto ou bem tostadinho.
- Desligue o forno e junte à farofa.
Farofa
- Coloque o óleo para esquentar.
- Junte as cebolas, tempere com sal e deixe até tostar bem, elas ficam quase queimadas. Com uma escumadeira, retire da panela e reserve.
- No mesmo óleo, frite o bacon até ficar crocante.
- Abaixe o fogo e junte o óleo até perfumar – aqui, se você quiser, pode aproveitar a cebola e o alho que sobrou da marinada do frango, mas escorra bem os líquidos antes de usar.
- Volte a cebola tostada para a panela e junte o colorau e a páprica.
- Em seguida, despeje as farinhas e mexa até incorporarem bem os temperos e ficarem com uma cor amarelada.
- Coloque as raspas de limão e mexa por um minuto.
- Desligue e acrescente o tempero verde.
- Corrija o sal, se necessário. A farofa deve ficar bem salgadinha.
- Misture com o frango.
DOCE DE FIGO VERDE EM CALDA
O doce de figo verde em calda da minha mãe tinha gosto de tempo e de memória. Era feito devagar, respeitando o ritmo das coisas simples, até que os figos absorvessem a doçura e ficassem macios, quase guardando um segredo . Cada vidro parecia carregar mais do que fruta e açúcar — levava junto um pedaço da nossa história. E, em cada colherada, vinha esse sabor que não se explica, só se sente: o de saudade bem doce.
INGREDIENTES
- 800 g de figos verdes
- 500 g de açúcar cristal
- 6 unidades cravos-da-índia
- 1 litro de água para a calda (+ 1,5 litro para aferventar antes)
MODO DE FAZER
- Lave bem os figos e faça um corte em forma de X na parte superior de cada figo. Não preciosa tirar a casca.
- Coloque os figos em uma panela com 1,5 litro de água, ou até cobri-los. Cozinhe por 6 minutos (conte assim que começar a ferver).
- Escorra bem e coloque na panela novamente com 1 litro de água, o açúcar e os cravos-da-índia.
- Coloque no fogo para cozinhar por 15 minutos (conte assim que começar a ferver).
- Desligue o fogo, coloque em potes esterilizados e feche bem. Se quiser, deixe o pote esfriando com os potes de cabeça para baixo, isto faz com que crie mais pressão na tampa.
- Quando estiver frio coloque na geladeira.
- Fechados, duram até um mês na geladeira.
- Se preferir, coloque em uma compoteira, dura até 10 dias na geladeira.










